Dois Contos Curtos de Vó

1. Da Inauguração.

Começou com aquela chuva danada e um frio de dar dó, contou vovó. Era o dia da inauguração da Sede Estrela D’água e os preparativos finais já estavam sendo feitos. Escureceu cedo aquele dia. Vovó e vovô ficaram encarregados de subir a longa rampa que vai do pátio até o chalé ,carregando as roupas brancas que todos deveriam usar na primeira noite da sede em funcionamento no novo sítio.
O vô ia na frente da vovó. Ele, desbravando a chuva, “Cuidado Tere! Não vá cair!”. E ela “Já caí”, gritava de dentro da poça de barro. Ele, seguia em frente repetindo “Mas só não vá cair, tá liso!”, e ela novamente “Mas eu já caí, Pedro!”.
Poça de barro digo eu: ela chamou de piscina!
Quando ele finalmente percebeu que ela não estava o seguindo, ela já estava debaixo do chuveiro e as roupas, de branco não ficou nada!

2. Do sumiço do vô. 

Acorda cedo, o véio!
Depois da Festa de São João todo mundo capotado, ele em pé já bem cedo.
Porta aberta – Porque sítio tem dessas coisas.
Vovó acorda. O primo mais novo, Antônio, também.
“Vá ver se teu vô quer café!”
O vô não tava em casa.
E agora? Toca a família toda a procurar o vô, que nasceu com um pé aqui, outro na Itália e ainda arranjou tempo pra buscar a vó em Bauru pra poder casar!
Desce a rampa que vai pro lago, sobe a trilha que vai pra mata, desce a trilha que vai pro vizinho e encontra um pé de sapato que na correria o vô deixou pra trás!
Todo mundo aprensivo:
“Ai meu Santo Antônio”, reza a mamãe.
“Pega o carro pra procurar na estrada”, pondera o papai.
“Chama um helicóptero pra procurar na mata”, sugere a vovó.
E o telefone toca: É o Santo Seu Toninho, o vizinho – se redimindo pela morte da cabrita, eu diria. –  “Achei o vô! Tá de pijama aqui na linha do trem, com um sapato sim e outro não. Só não tá faltando disposição!“.

Miriam Algarra

Anúncios

A Zena

Zena

Aos 3 anos ganhei uma cabrita. Sim, uma cabrita, a Zena!

Faço uma pausa aqui para dizer porque conto essa história: Essa semana assisti Divertidamente no cinemas e, no filme, existem “memórias base” que constituem nossa personalidade e constroem diferentes aspectos do nosso ser. O que me fez pensar que, minha cabrita, que é uma de minhas primeiras lembranças, seria, se eu tivesse que escolher, uma memória-base. A Zena também é minha primeira lembrança do Sítio Estrela D’água. Apesar de tê-la ganho ainda na chácara em que eu vivia antes do sítio, o que eu me lembro dela é justamente de sua ausência naquele lugar novo no qual eu viveria.

Ganhei-a durante a mudança e ela foi transportada até o sítio, onde aguardou enquanto meus pais traziam a outra parte da mudança. Esse breve período foi, no entanto, tudo que lhe restou. Quando chegamos, lembro- me bem de não vê-la dentro de sua coleira vermelha, que estava jogada na parte de trás do chalé para onde estávamos nos mudando.
“Ela foi pro céu”, mamãe e papai contaram.
Meu primeiro contato com a morte, acredito – Ou pelo menos o primeiro do qual me recordo.
Alguns anos depois, descobri que os cachorros do vizinho (dois Filas) a comeram e, só hoje, descobri que sobrou mais dela do que só a coleira: fizeram-me o favor de esconder os restos.

Tive uma cabrita por 24 horas! Não sei exatamente como isso me afetou, mas sei que mesmo não sendo uma pessoa rancorosa guardo até hoje Zena no pensamento, e é impossível desassociar meu vizinho da morte dela. Ele, que algumas vezes nos visitou – História que talvez eu conte em outro post – teve que ouvir de uma criança de seis anos se, por acaso, foram os cachorros dele que comeram sua cabrita. Constrangedor, coitado!

Miriam Algarra

Ps.: A Zena foi um presente do Jorge e da Letícia, que me acompanham até hoje como pais e são moradores do sítio Estrela D’água! Obrigada, vocês são maravilhosos ❤️

Das boas intenções

Já dizia o ditado que de boas intenções o inferno tá é lotado!
Mas se era pra ser e num foi, quem viu? Quem vê?
De boas intenções tem muita gente dotada,
Mas se na hora de fazer num faz, como é que fica o proceder?

É que ontem ouvi que a intenção era boa, mas o resultado ruim
E fiquei aqui pensando que é por essa tal dessa boa intenção
que o júri libera o criminoso e condena o inocente

Esse aí matou por ciúme, disse o internético.
O outro se intrometeu por carinho, disse a avó.
Aquele silenciou por respeito, disse a vizinha.
Aquele ali no canto quis ajudar, mas atrapalhou:
Tudo por amor!

Já daqueles que fazem coisa boa
A gente desconfia é da intenção:
Fez bem, mas foi por interesse próprio.
Fez bem, mas só queria aparecer!

Acontece que se intenção não se escuta,
não se come e não se sente,
Como é que faz transparecer?
Quem viu? Quem vê?

Agora mudo de poema pra prosa,
que é pra todo mundo entender
Que se é só Deus quem vê,
De que serve enaltecer?

E ainda, se é só ele quem vê
Tu faz pra ele, ou pra você?
Se faz pra ele, faz por que?
Se faz pra ti, é bonomia ou só vaidade?

E se quem faz coisa boa sobe aos céus
Faz por ambição ou compaixão?
Só fico aqui me perguntando
De que vale a boa ação nesse mundo tão Cristão?

É que num mundo de necessidade,
Me parece fartura negar ajuda
E se nega por conta de intenção
Que mais é que tu espera desse teu humilde irmão?

Miriam Algarra

Sobre a humildade.

É valorizada e, pelos mais altos padrões de exigências, esperado que se tenha. Basta que alguém fale com propriedade sobre determinado assunto para que outros te cobrem a dita cuja.
Veja bem, não é que eu ache que podemos saber tudo, mas ainda creio que haja nesse mundo algo palpável que possa ser dito com certeza. Ilusão da matéria, diriam alguns, – e pode ser que seja- mas ainda assim é (ou seria) uma matéria construída a partir de configurações que podem ser conhecidas e que, ao meu ver, devem sê-lo. Como poderíamos, se não, ser responsáveis por nossos atos e por suas consequências?
Na doutrina Católica, que rege os preceitos da nossa sociedade ocidental, não desce ao inferno aquele que peca por inocência. E, parece-me, que é por essa lógica que a maioria das pessoas escolhe viver. Lógica esta, aplicada a nossas crianças: ainda não aprenderam, então tudo bem! De nada discordo desse proceder, porém acho que faz parte de crescer assumir que sabemos de algumas coisas e que, por essas coisas e suas consequências, temos responsabilidade.
O que tenho visto de exemplo, no entanto, são adultos que se abstém do direito de saber para que não tomem responsabilidade por pelo menos uma parte do que acontece no mundo. Mundo, na verdade, é muito abrangente: em casa, que fosse! E vejo,também, jovens que aprendem e externam esses aprendizados e são julgados como não humildes por isso.
Eu confio em algumas das coisas que sei. Não quer dizer que não as ponha à prova: faço-lo todos os dias, mas tudo que recebo é um tipo de código que diz “Um dia você vai entender!”.
Parece que há um certo conhecimento que se atinge pura e simplesmente por envelhecer e, não é que eu duvide de sua existência, mas pode este sentimento anular as experiências de todas as outras pessoas? Soa-me como falta de respeito.
Tenho claro que cada um vive o que vive de maneira diferente e que, por isso, é que as conclusões são diferentes.
Pra mim, humildade é entender que cada um tem o seu saber e que não há valor maior em um ou em outro. Não é se abster de saber qualquer coisa que seja e fingir que há dúvidas onde ninguém mais as suscita.
Meu convite e principalmente meu pedido é que, se há realmente uma compreensão alcançada por todos os adultos que possa trazer alguma solução pro que quer que seja, por favor, contem-nos para que nós jovens possamos, com o nosso tempo livre e energia, fazer aquilo que vocês não fizeram por ainda não terem alcançado o tal conhecimento. Mas, se a resposta a que todos vocês chegaram for a desesperança e a conformidade em prol unicamente do próprio conforto, por favor, guardem pra vocês e não nos impeçam de construir novas verdades e novos saberes que possam realmente fazer a diferença. Peço também que, se for esse o caso, tomem responsabilidade pelos saberes que vocês conquistaram. Sofram, se necessário – porque sofrer é tão parte da vida quanto se alegrar – mas lembrem-se que vocês estarão dividindo um fardo com todas as outras pessoas que escolheram se conscientizar.

É provavelmente muito pouco humildemente – E eu prometo pra mim mesma trabalhar nessa prepotência- que deixo aqui um pouco do meu entender sobre humildade e sobre a influencia que isso tem no mundo.
Por favor, convido-lhes a me ajudar a duvidar de mim mesma!

Miriam Algarra

A privação como engenho da vida

É bem verdade que a miséria protagonizou a vida dos meus pais e avós.
Faltava comida, faltava educação, faltava informação, faltava emprego e faltava liberdade.  
Esse mundo duro foi palco do desenvolvimento da geração que me precede e, com esta, cresceu também a cultura da privação. 

É mais segura, menos arriscada. As expectativas se mantém baixas e seguimos repetindo: “O mundo é duro e vai te tirar tudo! A vida é triste, prepare-se”. Essa cultura ainda dita nossas vidas, nossas escolhas e decisões. 

Na educação, em casa, os pais com a melhor das intenções ignoram as reclamações dos filhos sobre a escola sob o pretexto de que a vida nos coloca a prova e de que estaremos sozinhos para resolver nossos problemas quando crescermos, portanto, não podemos contar com a intervenção paterna. “Pratiquem desde já!” É a mensagem passada aos filhos. Na escola, o pensamento se repete e é usado de forma a suprimir qualquer espontaneidade ou desejo. É a válvula de escape que garante tranquilidade aos que deveriam gerenciar conflitos ao invés de abafá-los. 

Crescemos assim, desamparados e despreparados, sofrendo com a privação de carinho, apoio e exemplo que deveríamos ter tido. Pra mim, a pior coisa que a vida nos tira, hoje, é o direito de sermos cuidados, amados, respeitados e vistos quando crianças e quem, de fato, tira-nos tudo isso? 

Na tecnologia, seguimos receosos: depender de aparatos eletrônicos é terrível! E quando não houver internet? E quando acabar a luz?  A solução parece óbvia: vamos mais uma vez nos privar de recursos e auxílio para evitar que, um dia, isso também nos seja arrancado. Quanto menos tivermos, menos podemos perder.
Esse medo, empaca nossos avanços.  É verdade o que dizem, sobre os antigos serem mais inteligentes: imaginem só se nossos antepassados pré-históricos não tivessem construído a sociedade que conhecemos hoje por medo da privação! Não usaríamos o fogo, não caçaríamos com armas, não construiríamos abrigos… Todas essas coisas poderiam nos deixar na mão. Que seria do homem que se encontrasse sem uma arma? Fome! Que seria do homem que não aguentasse dormir ao relento? Morte! 

Hoje, o Brasil vive uma ascensão. Lenta, sim, mas em seguimento.
Temos a terceira menor taxa de desemprego do mundo, o número de famintos caiu pela metade em 10 anos, no que concerne a mortalidade infantil prevê-se que estaremos dentro dos padrões da ONU em 2015 e nosso Sistema Único de Saúde é referência internacional. As expectativas, no entanto, são de pessoas que, hoje, têm acesso e que tentam comparar o Brasil com países que nunca foram explorados e que conquistaram a democracia há muito mais do que os nossos recentes 30 anos. 

Mesmo assim, eu vejo ódio e medo. Será assustador demais dar um passo ao lado e abandonar a cultura da privação? Será que preferimos não ter nada a ter nossos direitos revogados mais uma vez ? 

É preciso ter coragem pra esperar mais do Brasil. É preciso ter coragem pra aceitar as mudanças e protagonizá-las. E é preciso que essa mudança comece dentro de nossas casas, com a quebra de um modelo mental falido que somente reitera a manutenção da pobreza, da miséria e de um mundo de dificuldades e sofrimentos. 

Não é preciso ter calos pra andar descalço. Não digo que não vá doer, mas a dor faz parte da vida tanto quanto o amor e a felicidade. Negar a dor é também negar a vida e, por isso, só o que peço é que não sejamos nós a infligir a dor e o sofrimento aos que amamos. 

Miriam Algarra

Uma história de amor.

Maria é a mulher da minha vida
Quando comecei a conhecê-la, que sofrida era Maria!
Pisada, suja, tão fedida, mal-amada, pouco querida.

Tinha quem batesse, por isso apanhava.
Tinha quem forçasse, por isso transava.
Tinha quem a tratasse como lixo, por isso fedia.
Tinha como se levantar, mas isso Maria ainda não conhecia.

Antes de mim Maria não era nada, não era ninguém.
Antes de mim, Maria não tinha amor.
Hoje, Maria é a mulher da minha vida!
Tudo que faz é por mim.

Quando passa, lava e cozinha, é por mim.
Quando engravida, gera e cria,é por mim.
E se tira, nega e renuncia, é também por mim.
Maria, se engorda ou emagrece, é por mim.

As roupas que usa, sou eu quem escolho,
E pra onde vai e que horas volta, só cabe a mim decidir.
Maria, quem te ama? Maria, quem te quer?
Seja um homem, ou uma mulher, sou eu,
Maria, quem decido quem é.

É graças a mim que Maria é vadia.

Porque Maria sou eu.

E Vadia sou eu.

Eu que tomei as rédeas de minha vida e me conheci;
E me amei;
Eu que me levantei e marchei pela minha liberdade.
Eu que lembrei ao mundo que mereço respeito.
Eu- e todas as outras –
é que somos vadias.

Eu conto aqui um pouco do que é ser vadia,
do que é ser Maria,
do que é ser mulher.

Sou só Maria,
mas não Maria só.
Somos todas Marias,
E somos todas iguais
E todas devemos lutar,
pra que nós, mulheres, sejamos um dia
o amor de nossas próprias vidas.

Miriam Algarra

Inspirada pela campanha fotográfica da Marcha das Vadias do DF, de 2012.

“Ou Isto ou Aquilo”

 

Ou se tem liberdade e não se tem respeito
Ou se tem respeito e não se tem liberdade!

Ou se submete e não se realiza
Ou se realiza e não se tem respeito

Ou se passa calor e não se sofre assédio
Ou se sofre assédio e não se passa calor

Ou se fica em casa e cuida dos filhos
Ou se fica em casa e cuida dos filhos

Quem sobe nos ares não fica no chão
Não se for mulher.

É uma pena que não se possa escolher 
estar em um lugar diferente do qual nos foi designado

Ou encaro o mundo e vivo a tudo que aspirei
Ou aspiro, só, o pó do chão e só encaro as dores de ver o que reneguei

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
E vivo escolhendo o dia inteiro!

Ou sou feminina e submissa
Ou sou masculina e respeitada

Ou durmo com um homem qualquer e sou julgada
Ou espero até que meu marido durma com uma mulher qualquer e nós duas sejamos julgadas.

Ou cumpro o papel que me foi dado por nascer mulher
E abro mão de qualquer anseio que já me tenha tomado
Ou vivo, para sempre subjugada e para sempre inferior, por ser mulher.

De uma mulher, com todo respeito e admiração, à Cecília Meireles.

Miriam Algarra

 

 

 

 

Campanha: Ame um machista

Ao me deitar, já cambaleando de sono, assombra-me o pensamento: Machistas não enxergam seu valor.
Senti-me enganada pela vida: sempre os julguei como grandes detentores de auto estima – estima essa que perpassava os limites da vaidade, atingindo o pico da arrogância e do desprezo por qualquer ser que não ostentasse o órgão do qual tanto se orgulham: seus pênis.
Mas, como uma bofetada que me acerta o rosto, veio o esclarecimento: machistas se subestimam.
Sim, com certeza é isso.
A mulher, condicionada a temer o sexo, acredita que é preciso se guardar, se preservar. É o mínimo de respeito para com a sociedade e para com seu próprio corpo, é o que dizem. Mas então, se transar é desrespeitar o próprio corpo – a casa que Deus nos empresta para nossa passagem aqui na Terra – por que é que o homem também não o guarda? Por que é que o corpo da mulher é de Deus e o do homem é das mulheres que, desvirtuosas, cedem ao desejo? Por que é que a mulher deve prezar pelo seu valor e o homem não? Imagino eu que deva ser por falta deste último e assim concluo: os machistas não se valorizam.
” Já devia ter imaginado!”, penalizo-me. É claro que deve haver tremendo desfalque na auto estima dos que precisam rebaixar o outro para que se sintam algo.
A compaixão me acomete.
Dura pouco.
Todas as que sofreram e morreram, por culpa da baixa auto estima de certos homens, invadem meu pensamento e, embora materializem-se como números e estatísticas, acolho as dores que lhes foram impostas. O perdão é o mais longo dos caminhos, mas não há mudança sem perdão e não há perdão sem amor – próprio que seja, mas que seja amor, puro e sincero – e não há redenção ou recomeço sem o perdão.
Lutemos, portanto, mas alcancemos o perdão.
Todo agressor já foi uma vítima e toda vítima está sujeita a se tornar um agressor.
É um ciclo e a única coisa que desestabiliza e cura uma dor é o amor.
Amemos portanto, mesmo que no começo doa, um dia, alcançaremos o mundo que desejamos: um mundo de iguais, um mundo onde cada um sabe seu valor e sabe, principalmente, que esse valor é eterno e incondicional.

Miriam Algarra

Chega de Fiu Fiu: resultado da pesquisa

Olga

Ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Mas infelizmente isso é algo que acontece todos os dias. E é um problema invisível. Pouco se discute e quase nada se sabe sobre o tamanho e a natureza do problema. Para tentar entender melhor o assédio sexual em locais públicos, a Olga colocou no ar, em agosto, uma pesquisa elaborada pela jornalista Karin Hueck, como parte da campanha Chega de Fiu Fiu. Contamos com 7762 participantes e 99,6% delas afirmaram que já foram assediadas  – um número tão alto que já dá a ideia da gravidade do problema. Veja abaixo o resultado:

Onde você já recebeu cantadas? (era possível selecionar mais de uma opção)
Na rua  98%
No transporte público  64%
No trabalho  33%
Na balada  77%
Em lugares públicos: parques, shoppings, cinemas  80%

olga onde ja recebeu cantada

Você acha que ouvir cantada é algo legal?
Sim 17%
Não 83%

Ver o post original 1.031 mais palavras

Sobre o pensamento, a consciência e a liberdade.

As vezes me sinto um grande fantoche. Um ator mal dirigido que lenta e descoordenadamente tenta seguir as ordens do diretor – essas vozes na minha cabeça, que falam tão autonomamente quanto se é possível imaginar. Toda as minhas ações parecem falsas. Todas as minhas falas não são verdadeiras em alguma instância, em alguma realidade, para alguém. Como então julgar ou analisar qualquer coisa nesse mundo? Como agir e pensar diante de tanta incerteza a ser considerada? Tanta dor, tanto amor e outros sentimentos que nos levam a loucura. 

Estar consciente é uma tarefa complicada. O que seria mais verdadeiro? Falar, ou escrever, tudo aquilo que se pensa? Ou refletir profundamente diante de cada pensamento, antes de expô-lo ao mundo? 

Não me parece muito equilibrado falar sem pensar. Tão pouco me parece construtivo pensar demais e nada falar. É um enigma, mas também não sei ao certo se deveria perder tempo com ele, ou simplesmente esquecê-lo. Não sei se vale a pena escrever. 

Mas de que valeria se não o fizesse? De que isto serviria para o mundo? Pois, convenhamos, cá estamos por um motivo, e se falamos, pensamos e agimos, de algo isso deve ajudar a alcançar esse objetivo. Ou não? Não sei. Quem liga? 

Entro agora em um paradoxo: disserto sobre falar ou refletir, mas, neste exato momento, escrevo tudo aquilo que penso. Sem nenhum filtro ou censura. 

Eu devia parar. Mas não faz sentido parar. 

Quem devia parar é você. 

É. Acho que seria mais sensato. 

Meus pensamentos não vão parar. Pensamento. Essa coisa que me controla, sob a qual não tenho nenhum controle. E eu sei que você está pensando ” Claro que não! Eu escolho no que penso, mas… Elefante rosa.” Viu? Eu escolho no que você pensa. Ou não.  Sei lá. Quem liga?

E Deus? Para muitos ele também faz parte desse conjunto de coisas que nos controlam sob a qual não temos controle algum. 

Deus, pensamento, sociedade, família, cultura… Determinantes do que fomos, somos e seremos.  Do que fomos porque algum momento de nossa vida foi passivo de reflexão sobre quem somos, de onde viemos e o que nos determina –  até os 15 anos, talvez – e durante este período, fomos o que determinaram que seríamos. Depois disso, alguns julgam-se livres das amarras que o determinaram até então – Prá mim é impossível – mas, mesmo os que assim se julgam, tiveram que se livrar de determinadas amarras. Talvez, se fossem outras amarras, teriam sido levados para outro caminho, outro destino. Mas eram estas.

E assim segue. Ou não. Sei lá? Quem liga. 

Só sei que hoje, eu estou fadada a acordar, ser preparada por uma sociedade que não admiro – da qual faço parte sem nem ao menos ter o direito de construí-la – para então estar apta a trabalhar o resto da minha vida em uma só coisa que eu devo escolher aos 17 anos, idade esta, em que tenho coisas muito mais importantes pra decidir, por exemplo, se vou falar tudo que penso ou não. 

Sei lá. Não sei. Quem liga? 

 

Talvez alguém ligue. 

Talvez alguém se importe.

Acho que é por isso que eu tenho que falar. Quem sabe alguém ouve?

Acho que é por isso que todo mundo deveria falar. Mesmo que seja pra falar bobagem. O pensamento é uma zona muito segura. Não têm críticas, não tem mudança: só mais do mesmo. 

Sei lá. Não sei. Quem liga?

 

 

 

Miriam Algarra

dezembro 2018
S T Q Q S S D
« ago    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Enter your email address to subscribe to this blog and receive notifications of new posts by email.

Junte-se a 1.872 outros seguidores